Tratamento Cartográfico

Método e construção dos mapas

O projecto do Arquivo Dialetal do Centro de Linguística da Universidade do Porto (CLUP) encerra em si matéria com uma intrínseca componente espacial e, por isso mesmo, de enorme interesse para a Cartografia e com ganhos recíprocos para as duas Disciplinas: não só a Linguística pode recorrer a esta ferramenta/veículo de comunicação para apresentar os resultados das suas investigações como também a Cartografia tem aqui a oportunidade de abordar em Mapa um tema tão poucas vezes retratado em Portugal.

Depois de equacionadas outras alternativas, a Unidade Espacial de Análise (UEA) neste conjunto de Mapas foi definida como o Inquirido e o local onde este se encontrava no momento da recolha fonética. Depois de georreferenciados, foi estruturada uma base de dados – geográfica – a qual contém, para cada Indivíduo, algumas variáveis sócio-económico-demográficas e, especificamente, aquelas relacionadas com a Linguística.

Ainda da perspectiva espacial, que relevância tem o local onde o individuo está a ser auscultado? O seu percurso de vida, a decorrente maior ou menor mobilidade, e por sua vez o seu contato com outros meios, não terão afectado (profundamente?) o registo obtido naquela localização e naquele momento? Um dos muitos problemas que emergem neste exercício cartográfico…

A base cartográfica para acolher e representar os dados toma como elementos de referência os cursos de água e as áreas cuja altitude ascende a mais de 600m. A estes elementos naturais foram somadas as sedes do Concelhos mais populosos (em 3 classes de 25, 50 ou mais de 100 mil habitantes) e as sedes de Distrito. A opção por estes dados, entre outros possíveis, prende-se com a necessidade e importância de ler, interpretar e relativizar os resultados obtidos em mapa. Os padrões de distribuição obtidos deverão, assim, ser considerados e explicados à luz destas referências espaciais: as áreas de maior altitude poderão explicar os vazios de realizações fonéticas? a proximidade ou afastamento a importantes centros populacionais, e a consequente “urbanidade”, poderão explicar os mapas conseguidos?…

A cartografia é um veículo de comunicação e dados espaciais com um poder tremendo; amplifica os esforços de um texto descritivo. Contudo, na leitura destes mapas, por agora conseguidos, importa deixar bem claro que:

* existem ainda vastas áreas do território nacional onde ainda não foram recolhidos dados (daí a importância de fazer constar em cada mapa a localização dos Inquiridos, dispensável com uma rede mais fina e apertada de recolhas);

* áreas mais ou menos vastas onde não é atestada a realização fonética podem ser explicadas pela ausência de trabalho de recolha – no terreno – e não pela não-ocorrência!…

Conscientes das limitações e condicionalismos, mas partindo da base de informação já constituída, são inúmeras as possibilidades exploratórias:

* o facto de a UEA ser o indivíduo (e não uma circunscrição administrativa, p. ex., embora considerada, pensada e operacionalizada) permite uma enorme elasticidade nas escalas de análise, desde os grandes retratos nacionais a estudos à escala urbana;

* o cruzamento destes dados com outras variáveis demográficas, económicas, culturais, enriquecerá por certo os resultados cartográficos e as leituras que vierem a pender sobre estes.